Gerliézer é repórter do Portal 730, estudante de jornalismo, bairrista, amante de esportes, ciclista e fascinado por números e dados esportivos. No blog, você acompanhará opiniões sobre fatos do dia-a-dia, histórias e reportagens.
10 a 1. Este é um placar humilhante para qualquer equipe amadora. Tomar de 10, como se diz na gíria futebolística, revolta até mesmo os peladeiros mais frios e sem compromissos com as camisas, muitas das vezes sem símbolos, que vestem. Se para os amadores tem todo este peso, imagine para uma equipe profissional, tradicional ainda por cima.
10 a 1. Esta foi a soma negativa dos placares dos quatro clássicos goianienses disputados pelo Vila Nova na primeira fase do Campeonato Goiano. O time colorado perdeu para o Goiás por 3 a 0 e 2 a 0. Já diante do Atlético, as derrotas foram por 1 a 0 e 4 a 1.
O clássico de sábado, que valia uma vaga no G-4 do Campeonato Goiano deu apenas 5 mil pagantes. Apesar da violência que tem afastado os torcedores dos clássicos, sem dúvida o descrédito do torcedor vilanovense em seu próprio time foi o grande motivo para o estádio vazio.
Estrategicamente ao longo das últimas décadas, as diretorias que passaram pelo Vila Nova transformaram o orgulhoso torcedor colorado da década de 70 em alvo fácil e corriqueiro para chacotas dos rivais.
Nos anos 70, o erro foi concentrar forças nas competições estaduais, deixando o Campeonato Brasileiro de lado. Chegou os anos 80, e deitado no tetra campeonato, os colorados seguiram não dando importância para as competições nacionais. Quando quis acordar, já nos anos 90, o Clube dos Treze já estava em atividade, criando um abismo financeiro entre os clubes da elite e os demais.
Os raros momentos de alegria do torcedor vilanovense após o tetra campeonato conquistado em 1980, quase sempre foi proporcionado por equipes que tinham os jogadores da casa como base. Sempre que uma nova diretoria assume o clube, discursa que irá investir e valorizar este departamento. Falácia. No início deste ano, Marcos Martinês e seu grupo bradou que os meninos teriam chances. Quantos estão jogando neste fraquíssimo time do Vila Nova? Quais investimentos foram direcionados aos amadores?
Para voltar a dar alegria ao seu torcedor, o tigre necessita de seguidas diretorias que enxerguem o clube acima de suas gestões. As administrações não podem assemelhar as das prefeituras, onde cada prefeito restringe a história do município ao período em que está à frente. Antes de prometer e especialmente querer ser o herói que levará o Vila Nova à primeira divisão, o dirigente vilanovense tem que se preocupar com a sobrevivência digna do clube. A partir daí, então galgar uma evolução no ranking nacional.
Enquanto isto não acontecer, o vilanovense seguirá sendo alvo de gozação dos rivais mais organizados, e torcendo para que o Goiânia não saia do buraco, temendo ser o giral de pancadas de mais um. É hora dos colorados que possuem influência nas decisões do clube trabalhem para transformar o 1 em 10 e, consequentemente, as lágrimas em sorrisos.
Nas últimas décadas, o futebol nacional passou por grandes transformações. As principais equipes do país saíram das mãos dos abnegados para se tornarem empresas. Os craques viram seus salários multiplicarem centenas de vezes, algo surreal até para eles próprios. A apreciação por um clube avançou, enquanto o torcedor do espetáculo praticamente desapareceu. As arquibancadas foram substituídas pelos sofás e as rendas, que mantinham os times, se tornaram troco no milionário mundo do esporte bretão.
O objeto de minha análise neste contexto de absoluta metamorfose é o comportamento do torcedor. Em um seguimento, onde tudo se profissionalizou, o aficionado, na maior parte dos casos, é o único que segue no esporte de forma abnegada e ainda colabora financeiramente com seus clubes de coração. Louvável.
Ter um clube de coração se tornou parte da cultura brasileira e também de vários outros países no século XX. Até aí nenhum problema. O fato que me preocupa é o aspecto fundamentalista que tem tomado conta do verbo torcer, que está fabricando seres humanos que colocam o futebol acima de tudo. A pessoa que torce por outro time não é mais vista apenas como alguém que tem um gosto comum pelo esporte e diferente nas cores, mas sim como um adversário constante, sendo em alguns momentos guindada a posição de inimigo, mortal inclusive.
A intolerância humana já nos deu inúmeros exemplos de sua capacidade em gerar tragédias nos mais variados seguimentos da sociedade. A humanidade já assistiu chacinas raciais, religiosas e políticas, entre outras. No mundo do futebol, a guerra das torcidas organizadas é uma amostra clara dos seres intolerantes agindo no esporte.
Engana-se quem pensa que essa intolerância se limita a alguns membros de torcidas organizadas. Este fenômeno tão negativo chegou aos torcedores comuns. As gozações e brincadeiras entre pessoas que torcem por clubes diferentes foram substituídas por xingamentos e ameaças. O provocar deu lugar ao humilhar. A internet multiplica o eco destas ações, principalmente através das redes sociais.
A mídia em sua constante busca pelo espetáculo tem na irracionalidade um valoroso conteúdo para atrair audiência. O torcedor fanático que abandona o emprego, a esposa grávida de oito meses e a família para seguir seu time de coração do outro lado do mundo é tratado como herói pelos veículos de comunicação de massa e pelos apaixonados pela mesma equipe. Irracionalidade total de todas as partes.
Em todo este universo, que valoriza o amor incondicional por um clube de futebol, esquece-se de algo básico para a sobrevivência deste ou de qualquer outro esporte, a necessidade de um adversário. Sem ele, não há jogo. Tão necessário quanto a existência do nosso time é a do oponente, este simples fato já deveria ser motivo de muito respeito, tanto à instituição quanto aos seus torcedores.
Meu temor é que quanto mais essas ações exageradas e irracionais sejam valorizadas e fomentadas, mais violentas se tornem as relações entre torcedores de clubes diferentes. Hoje, tão acostumados à violência no esporte, já vemos com naturlalidade, os amantes de clubes diferentes separados por grades nos estádios de futebol. Em dia de clássicos já se tornou comum a necessidade de 500 policiais para fazer a segurança do evento. Estamos nos tornado convenientes com a barbárie futebolística. Lamentável.
Desde 2003, o Campeonato Brasileiro passou a ser disputado por pontos corridos. Ou seja, todos os times jogam entrem si, em turno e returno. A equipe que soma mais pontos é o campeão da competição. É natural ouvir dirigentes, torcedores e cronistas esportivos bradarem que a fórmula, importada da Europa, é justa, pois premia quem foi o time mais regular durante toda a temporada.
Em um primeiro momento, com um olhar meramente superficial, a fórmula realmente se apresenta justa. Afinal, todos os times se enfrentam, uma vez em casa e outra fora e o troféu vai para aquele que acumula mais pontos. Mas, vamos sair da superficialidade e mexer neste angu repleto de caroços.
A primeira pergunta que faço: Os clubes entram para a competição em condição de igualdade? Com certeza não. O único ponto em comum é a tabela de classificação com pontuação zerada antes da rodada inicial. As realidades são bastante distintas. Vamos pegar a edição de 2012 como exemplo. Enquanto Flamengo e Corinthians receberam algo em torno de R$ 84 milhões pelos direitos de transmissões de seus jogos, o Atlético Goianiense teve pouco mais de R$ 20 milhões para tocar seu time.
Tomando este exemplo como comparação, pergunto, mesmo começando a competição todos com zero ponto, quais agremiações teria mais condições de chegar à frente no Campeonato Brasileiro? Flamengo, Corinthians ou Atlético? É como se eu uma corrida de cavalos, colocasse em um mesmo páreo um puro sangue inglês contra um pangaré, que só come duas vezes por semana, e dizer que a competição é justa, pois o percurso a ser percorrido pelos dois durante a prova é o mesmo.
A prova que o novo regulamento do Campeonato Brasileiro está diminuindo a competitividade entre os clubes pode ser conferida na lista dos últimos campeões. O Cruzeiro, em 2003, foi o último time fora do eixo Rio – São Paulo a levantar o caneco. O jejum já dura nove anos, o maior da história do futebol nacional. Nem mesmo as equipes gaúchas e mineiras, que financeiramente estão em um patamar bem superior às demais, não conseguem mais competirem de igual para igual com paulistas e cariocas.
Os grandes clubes do Rio de Janeiro e de São Paulo não têm do que reclamar sobre a divisão do dinheiro e do regulamento do Campeonato Brasileiro. Assim como na pirâmide social, os membros da classe A, só tem amor pelo nosso sistema econômico, que lhes oferecem vidas de reis. Porém para o esporte estes fatores são extremamente prejudiciais e retrógados, pois levam o país de volta à pobre dicotomia do período colonial. Seria muito mais interessante, competições estaduais, regionais e nacionais equilibradas, onde se premiasse a competência ao invés do poderio financeiro.
Evidentemente que uma simples troca de fórmula de disputa de campeonato, não colocaria as equipes em pé de igualdade, porém diminuiria um pouco a distância entres os times do eixo e os demais. A grande reformulação necessária está na parte financeira, com um rateio igual dos recursos. E o argumento de que os clubes do Rio e São Paulo recebem mais porque tem mais torcida é frágil. Esta superioridade numérica foi construída através da mídia. Assim como os resultados positivos mais a força dos veículos de comunicação fabricaram torcidas nacionais para paulistas e cariocas, poderia construir também para equipes de outros Estados.
Em síntese, a justiça do campeonato de pontos corridos na realidade do futebol brasileiro não passa de mito, que se despedaça em qualquer análise que quebre a superficialidade da mera pontuação. É como no sistema capitalista. O pobre vislumbra, e em algumas raras exceções, atém pode ascender a uma classe superior, mas de regra tende a nascer e morrer na mesma faixa da pirâmide social.
O Corinthians será o representante da América do Sul na edição 2012 do Mundial Interclubes, da FIFA. Inicialmente, vale ressaltar que o clube paulista chegou a esta condição com todos os méritos, pois conquistou a Taça Libertadores de forma licita e invicta. Os rivais paulistas e, porque não do restante do país, perderam o principal argumento de gozação para com os torcedores corinthianos.
A mídia nacional está emocionada com o momento do time de Parque São Jorge. A imprensa paulista, em êxtase. Porém, a mistura dos bons índices de audiência com a paixão de diversos jornalistas esportivos e o espaço ‘ilimitado’ da internet geram verdadeiras aberrações em forma de notícia.
Tudo que envolve o Corinthians automaticamente se torna em notícia. Várias destas ignoram completamente aqueles critérios de noticiabilidade ensinados nos primeiros semestres de qualquer curso de comunicação social. Vale ressaltar que a crise de conteúdo do jornalismo esportivo não se limita aos textos referentes ao clube paulista. Recentemente, a morte de um polvo na Alemanha ganhou destaque nos pobres cadernos dos principais veículos esportivos do mundo.
Esta ascensão do Corinthians a mídia de forma explosiva, tem suas razões e não é uma mera obra do acaso. Nos últimos anos, as diretorias que comandaram o clube de Parque São Jorge trabalharam de forma coordenada e inteligente para chegar a esta condição.
Mudança de filosofia
Assim como o PT, o Corinthians se transformou para sair da condição de coadjuvante popular e chegar onde almejava. O torcedor pobre, que tinha no clube alvinegro a alforria da vida sofrida é apenas um ícone, ainda utilizado, mas totalmente pertencente ao passado, assim como o operário militante é para o Partido dos Trabalhadores. As duas entidades, hoje são comandados por uma nova elite, sem o sangue azul, mas com a mesma ambição pela permanência no poder.
Com apoio incondicional da mídia nacional, o Corinthians segue multiplicando o número de torcedores pelo país. O estereótipo de torcedor mais fiel que os demais é repassado pela imprensa em doses diárias. Em alguns momentos parecem tão verdadeiras, devido a sua ótima produção, que até mesmo experientes analistas esportivos se convencem que é verdade. Este é um espetáculo semelhante ao dessas igrejas que locam horários de tevê e transmitem infindáveis milagres em tempo real.
Andrés Sanchez, na sua passagem pela presidência do Corinthians, jogou como a mídia sensacionalista do país queria. Ofereceu aos grandes veículos de comunicação tudo o que eles queriam. Grandes contratações, discussões teatrais com os rivais e uma coleção frases de efeitos, daquelas que são destacadas logo nos títulos da notícias. A estratégia deu certo, o time ganhou um estádio padrão Copa do Mundo, conquistou mais um Campeonato Brasileiro, a tão sonhada Libertadores e ainda pode faturar o título mundial, além de ter hoje a camisa mais cara do país para quem deseja anunciar sua marca.
Este formato será copiado por grandes clubes do país, e também deve ser adotado por aqueles que são grandes regionalmente. O espetáculo da mídia requer atores qualificados, como Andrés Sanchez, o pai do novo Corinthians, o foi.
Hoje o Corinthians é a coqueluche da mídia nacional, mas amanhã pode ser o Fluminense, o Cruzeiro, o Red Bull ou qualquer outro clube. As empresas jornalísticas, assim como todas as demais, visam lucros e estes não tem preferência por cor de camisa.
Havia um menino muito talentoso e querido por parte da comunidade, mas órfão de pais. Eis que surgiu um grupo de abonados amigos disposto a mudar a vida e a realidade daquela criança. Eles reformaram a casa dele, pagaram suas contas em dia e a princípio deram a expectativa de que o pequeno teria um futuro melhor.
O tempo foi passando, este grupo seguiu cumprindo as obrigações, mas esqueceram de um detalhe fundamental, não o prepararam para tocar a vida sozinho. Não lhe ensinaram a ler, nem a escrever, nem as artimanhas da vida adulta. Tudo que o, agora já adolescente ia fazer, dependia dos ‘pais’ adotivos.
Eis que um dia, depois de muita contestação da comunidade que adorava o rapazinho, o grupo de amigos se chateou e abandonou o garoto. Foi então que ele ficou entregue a própria sorte. Vendo a fragilidade do jovem, muitos se aproximaram dele. Alguns queriam apenas explorar o seu potencial em benefício próprio. Outros até queriam ajudar, mas lhes faltava capacidade para direcionar a vida do rapaz para um rumo certo.
Esta pequena história é uma paródia do que aconteceu no Vila Nova. O grupo de Carlos Alberto Barros, Sizenando Ferro, Leonardo Rizzo e companhia não preparou o clube para a vida sem eles. Em suas administrações fizeram com que o time colorado dependesse deles para absolutamente tudo. Eles tiveram boa vontade, mas não fizeram do Tigrão um time vencedor, muito menos o prepararam para um futuro melhor.
No período das administrações do grupo de abonados, muitos analistas do futebol goiano não conseguiram observar o problema que estava sendo criado. Outros se omitiram, pois constantemente as empresas do grupo apareciam nas grades comerciais. Poucos foram os que alertaram o torcedor colorado para o perigo.
Após a saída do grupo, diversos picaretas e projetos de dirigentes se aproximaram do Vila Nova. Hoje, o torcedor colorado e também os analistas menos apaixonados não conseguem vislumbrar um bom futuro para o time colorado.
O desafio de tirar o Vila Nova do precipício é grande e extremamente complexo. O mesmo passa por uma união entre homens competentes e de boa índole, pela torcida colorada e pelo apoio da imprensa. É preciso resgatar a credibilidade do clube, voltar a utilizar jogadores pratas da casa e fazer isto com apoio dos torcedores e contar com a colaboração da mídia, que muitas das vezes, pela falta de sensibilidade, detona este tipo de projeto. Porém, mais importante que tudo isto, quem for comandar essa ‘revolução colorada’ precisa trabalhar o tempo todo para que o mais breve possível o clube caminhe com as próprias pernas. Só assim, o alvirrubro terá perspectivas de dias melhores.